“Tudo demanda tempo. Abelhas se movem muito rapidamente para conseguirem ficar paradas”[1]

Podia ser Eclesiastes, mas é David Foster Wallace. Se um dos nossos últimos minicasts foi sobre Lovecraft[2] e suas bestas apocalípticas que emergem do mar, semana passada nós lançamos um episódio sobre (provavelmente) o meu escritor de ficção preferido. E se pensar na literatura de Lovecraft nos faz pensar no nosso fim eterno, os escritos de Wallace nos fazem pensar em tudo que acontece em nossa vida enquanto o fim não chega.

E eu não começo esse texto comparando DFW a Salomão em Eclesiastes por acaso. Essa comparação, antes de mais nada, é uma retrospectiva de 2013 para mim: foi nesse ano que se encerra que eu descobri Wallace e li quase todos os seus livros publicados[3] e que eu ouvi uma das mais fantásticas séries de pregações sobre um dos livros mais legais da Bíblia[4]. Fazer alguma conexão entre as duas coisas era, no mínimo, inevitável.

Eclesiastes é um livro pouco conhecido da Bíblia, e bastante difícil de ser entendido, na maior parte do tempo. A sabedoria densa e carregada de Salomão pode assustar um leitor despreparado, mas esse livro não está na Bíblia por acaso, e muito menos por acaso está listado entre os livros… de sabedoria. Nas palavras de Clint Archer em um dos textos que eu mais gostei de traduzir[5]:

Eclesiastes torna clara essa ideia: Deus (o Criador) deixa um rastro de “migalhas” (sua criação) para nos guiar à alegria que só pode ser encontrada nele. Nós passamos nossas vidas frustrados porque as migalhas não nos satisfazem, porque não entendemos o propósito; elas estão nos levando para o banquete da satisfação somente em Deus.

E a frustração e insatisfação sem fim que aflige todo ser humano que busca resposta nas migalhas do caminho como se elas não fossem exatamente isso, migalhas que apontam para algo maior, é a maior marca da literatura de Wallace. Para ficar em apenas alguns exemplos:

Sua obra prima, Infinite Jest, fala sobre como a sociedade do fim do Século XX se tornou um reflexo de seu vício por entretenimento. Agora compare isso com Eclesiastes 2.8-11:

Amontoei também para mim prata e ouro e tesouros de reis e de províncias; provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres. Engrandeci-me e sobrepujei a todos os que viveram antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria. Tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma, pois eu me alegrava com todas as minhas fadigas, e isso era a recompensa de todas elas. Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol.

Em seu livro publicado postumamente, The Pale King, um repartição pública da Receita Federal americana é usada para refletir sobre o tédio, a mesmice e a rotina de todo o trabalho e toda a vida humana. Salomão responde[6]:

Pois que tem o homem de todo o seu trabalho e da fadiga do seu coração, em que ele anda trabalhando debaixo do sol? Porque todos os seus dias são dores, e o seu trabalho, desgosto; até de noite não descansa o seu coração; também isto é vaidade.(Eclesiastes 2.23-23)

Para não se delongar muito, no ensaio que abre o livro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, de mesmo título, ao visitar uma feira agropecuária, Wallace nota como pessoas que vivem constantemente longe de tudo e de todos em suas propriedades se aproveitam desses momentos festivos[7] para se amontoarem. Mas Salomão já havia sacado, muito antes de Wallace sonhar em nascer, que…

Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará? (Eclesiastes 4.9-11)

Eu poderia seguir nos exemplos, mas acho que já deu pra mostrar onde eu queria chegar. David Foster Wallace hoje é considerado um dos maiores escritores do fim do Século XX, e provavelmente ficará conhecido assim pela história. Sua obra possui uma legião de fãs que fazem coisas como projetos em conjunto de dedicarem suas férias de verão a destrincharem apenas a já famosa página 223 de Infinite Jest.

Muitos escritores, ao longo da história, foram capazes de capturar a essência dessa vida de correr atrás do vento, mas poucos de uma forma tão direta quanto Wallace. E é isso o que nos prende em suas narrativas de ficção ou ensaios sobre a vida e tudo mais: o vazio que qualquer um sente longe daquele para quem fomos criados. Nas palavras de Agostinho, “formaste-nos para ti, Senhor, e nosso coração não terá sossego enquanto não encontrar descanso em ti”.

E se a vida de Wallace terminou tão abrupta quanto alguns de seus livros terminam, aqui reside a grande diferença entre o grande escritor dos anos 90 e o grande sábio do Antigo Testamento. Salomão escreveu Eclesiastes ao fim de sua vida, e depois de ter estudado cada aspecto dela, cada fracasso, cada insatisfação, cada dia desperdiçado e cada oportunidade perdida, aproveitado todos os prazeres que esse mundo tem a oferecer e gastado mais dinheiro que você seria capaz de contar, reconhece que toda essa fumaça e vapor só faz sentido quando olhamos para acima do Sol e enxergamos a resposta final de que por trás da nossa rotina, do nosso trabalho, da nossa diversão e de tudo o mais que fizermos é que essas coisas não são um fim em si mesmas, mas apontam para o Criador de todas elas e que, por meio de sua graça infinita, nos reconcilia consigo.

“De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más.” (Eclesiastes 12.13-14)

 


[1] “Everything takes time. Bees have to move very fast to stay still.”

[2] E o Daniel, assim como eu faço agora, escreveu mais no blog para aprofundar o assunto.

[6] Ou melhor, previu. Não é porque eu li Wallace primeiro e Salomão depois que a ordem dos dois se inverteu.

[7] … e ficarem longe do fato de viverem constantemente longe de tudo….

 

Fonte: http://reforma21.org

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